Por que o Brasil elegeu um presidente anti-Brasil?

com ilustração de Ildo Nascimento

Em outubro de 2018, tão logo Jair Messias Bolsonaro, um capitão reformado do Exército e até então um deputado de pouca expressividade no panorama nacional, venceu as eleições com 57,8 milhões de votos, ficou a assombrar os democratas a questão de como o povo brasileiro poderia ter colocado na Presidência da República um político de pensamento tão reacionário.

Embora alguns intelectuais, a exemplo do historiador português Manuel Loff, argumentem que a ascensão do bolsonarismo “configura um neofascismo adaptado ao Brasil do século XXI”, a nova onda de obscuridade nos quadros político-partidários dirigentes no país guarda uma origem bem mais remota. Está enraizada num padrão mundial de poder que se inaugura no século XVI com a colonização da América.

Seguindo o pensamento crítico de autores descoloniais latino-americanos, como Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Ramón Grosfoguel, o colonialismo português, que teve expressão no Brasil, estava integrado à formação de um sistema mundial moderno e colonial, que iria assentar gradualmente numa ordem patriarcal, racista, de sobre-exploração e eurocêntrica. O que se torna hegemônico globalmente, passando a compor o imaginário de uma certa normalidade, é a ideia da superioridade do homem-branco-europeuheterossexual-patriarcal-cristão-militar-legítimo descobridor/explorador.

Todos esses elementos são constitutivos de um alicerce de poder colonial que vai organizar e impulsionar a prática de opressão, exploração e dominação em distintas dimensões da vida social, desde a economia e as relações de gênero até às organizações políticas e instituições de Estado, a produção do conhecimento e o ordenamento familiar. Importante destacar que, ao contrário do que muitos poderão pensar, essa matriz de poder colonial não se extinguiu com o fim do colonialismo.  

Como nos lembra Grosfoguel, é um mito acreditarmos que vivemos atualmente num mundo pós-colonial. Segundo ele, apenas saímos de um período de “colonialismo global’ para entrar num período de “colonialidade global”. Significa dizer que distintos e antigos territórios coloniais, agora organizados politicamente como Estados independentes, continuam periféricos ou semiperiféricos na economia-mundo capitalista e na produção do conhecimento, numa relação de forças fortemente assimétrica face aos países centrais e às sociedades ocidentais brancas, europeias ou euro-americanas, a exemplo dos Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O Brasil não é exceção e, por diferentes aspectos, é ainda uma semiperiferia colonial das hegemonias (econômicas, epistêmicas e culturais) do Norte Global. O povo brasileiro e as suas lideranças político-partidárias não se libertaram da estrutura secular de exploração e opressão cultural, política, sexual e econômica. Muitos ainda não despertaram para as situações coloniais que operam internamente e mantêm uma hierarquia social e étnico-racial segregadora.

Um exemplo dessa cruel segregação está na educação. Naturalizou-se o absurdo de um sistema de apartheid. Enquanto as escolas públicas e de pior qualidade de ensino ficam destinadas a estudantes pobres e negros, os filhos das famílias ricas estudam nas caras escolas da rede privada. A educação no Brasil, ao contrário do que defendia o educador Anísio Teixeira, cumpriu e cumpre um rearranjo histórico de privilégio. E como não lembrar aqui a icônica pintura mural a ocupar uma parede com 15 metros de extensão no 9º andar do Ministério da Educação, em Brasília, e que desde 2016 encontra-se escondida dos olhares por divisórias brancas?

Tombada pelo seu valor histórico e artístico, a obra é de autoria da artista Gilda Reis Neto e foi executada na década de 1960, a pedido do arquiteto Oscar Niemeyer. A artista faleceu em 2017, mas numa oportunidade de entrevistá-la pessoalmente no apartamento-ateliê em que morava, em Ipanema, revelou o desejo de ver restaurado o painel-mural em que retratou a desigualdade da educação brasileira: de um lado, crianças ricas e uniformizadas e, de outro, crianças tristonhas, de pé no chão, excluídas da escola. Na página que mantinha no Facebook, ela denunciava o descaso com as infiltrações que, desde a década de 1970, foram destruindo a pintura.

Mural de Gilda Reis Neto no Ministério da Educação: restauração impossível.
Mural de Gilda Reis Neto no Ministério da Educação: restauração impossível. Mais imagens no Metrópoles.

O processo de descolonização cultural da educação brasileira ainda é muito incipiente. Somente nas últimas duas décadas, incorporou-se no currículo escolar o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira (Lei nº 10.639/2003) e avançou-se na implementação de políticas para assegurar uma educação específica para os povos indígenas [i]. Passos importantes não apenas para conhecer, respeitar e valorizar a participação de negros e indígenas na construção da identidade e história nacional, mas também para o despertar de uma consciência crítica das relações étnico-raciais de um legado colonial e que reverberam em preconceitos contra negros, quilombolas e indígenas.

Com efeito, o discurso político-ideológico de ódio que Bolsonaro vocifera contra mulheres, homossexuais, minorias étnico-raciais e ativistas de esquerda que lhe fazem oposição guarda raízes muito mais profundas do que aquelas que a extrema-direita tem rotulado, desde as décadas de 1970 e 1980, de marxismo cultural. Embora queira transparecer, a invenção do termo marxismo cultural não tem a ver com as ideias de Karl Marx. O que se apresenta no rótulo pode ser interpretado como artifício de marketing na guerra ideológica contra a Nova Esquerda e suas lutas políticas pela igualdade de gênero e pelos direitos dos gays e das minorias étnico-raciais. A Nova Esquerda com sua luta ideológica no campo cultural é influenciada pelas ideias de Antonio Gramsci.

Como assinala José Pedro Teixeira Fernandes, investigador da Universidade NOVA de Lisboa, a chamada Nova Esquerda surge nas décadas de 1960 e 1970, quando a luta contra a dominação capitalista desloca-se do tradicional terreno marxista da economia política (relações de trabalho) para as críticas à hegemonia cultural liberal-burguesa. Para Gramsci, a burguesia capitalista mantinha o controle da sociedade não somente pela violência das relações de produção, mas também pelo hegemonia cultural dos valores burgueses.

Todavia, o discurso de ódio (do presidente e dos seus apoiantes) ao marxismo cultural de Gramsci não explica a eleição de um candidato com discurso explicitamente racista, homofóbico e misógino, como em diferentes ocasiões tem sido vociferado contra negros, quilombolas, indígenas, mulheres e homossexuais. A nova onda de obscuridade que o Brasil atravessa sob a liderança de Bolsonaro talvez seja melhor explicada pelo que o filósofo Roberto Mangabeira Unger designa por colonialismo mental [ii].

Esse conceito nos ajuda a entender não só o pensar de Bolsonaro, mas também o dos seus seguidores, aqueles que comumente e de forma pejorativa no Brasil têm-se chamado de bolsominions. O coloniaslimo mental, no sentido empregado pelo Unger, significa a recepção passiva à hegemonia das ideias, da cultura, dos valores euro-americanos. Em outras palavras, significa aceitar a posição semiperiférica no mundo, menosprezando o valor da cultura popular e da diversidade étnico-racial dos/as brasileiros/as, desvalorizando a capacidade intelectual, científica e técnica de encontrar soluções para problemas nacionais, regionais e locais à luz da experiência histórica e das capacidades que temos.

O colonialismo mental recai sobre brasileiras e brasileiros que não despertaram criticamente para a condição de submissão a uma hegemonia de formas coloniais de poder que há mais de cinco séculos tem (re)produzido racismos e desigualdades várias. Ainda que não de forma generalizada, estamos a dizer que o colonialismo mental abrange brasileiros/as de todas as classes sociais, o que implica considerar que ter acesso a uma educação de privilégio no Brasil não é garantia de um despertar descolonial. Este se constrói principalmente nas lutas sociais, na experiência da subalternidade, mas também depende de uma agenda política estratégica para a educação. Não se avançará nesta direção enquanto a mentalidade dos dirigentes do país for (re)produtora de relações coloniais, que subalternizam o Brasil e o seu povo.  

Uma educação crítica descolonial passa por ressaltar e relembrar os momentos fulcrais em que o país revelou a sua essência. Inclui lembrar, por exemplo, o Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade em 1928, como uma crítica descolonial de vanguarda que se baseava nos saberes indígenas de Pindorama, que era como os nativos do que conhecemos hoje como Brasil denominavam a terra matriarcal que os portugueses rebatizaram, fincando no chão a cruz de uma ordem imperial patriarcal e colonizadora.

Os indígenas de Pindorama, classificados por portugueses e espanhóis como inferiores aos civilizados humanos europeus civilizados, não concebiam a natureza como uma coisa a ser explorada para fins de acumulação capitalista. A natureza era um ser vivo e divino, integrada à concepção de uma outra lógica de humanidade. Enfim, a revolução caraíba, que serviu de inspiração ao nosso coletivo, tinha para Oswald de Andrade um sentido de resgate da identidade nacional, de bradar para o mundo o valor da nossa gente, do nosso modo de ser, de pensar e de perceber o mundo.

Muito antes de uma onda bolsonarista assombrar o país com o seu particular neofascismo, as formas coloniais de poder já estavam entre nós, nas manifestações racistas cotidianas, no capitalismo neoliberal, na ideia da Europa e dos Estados Unidos como expoentes de uma pretensa melhor cultura e melhor ciência. Tudo isso são expressões coloniais de poder que se coadunam para moldar um pensar acrítico que acha o mundo do outro mais belo e as suas universidades mais avançadas, como se elas fossem filiais da mitológica Atlântida.

O fascínio que o presidente Bolsonaro e os seus filhos (e fanáticos seguidores) cultuam pelos Estados Unidos e tantos outros brasileiros/as pelos países ricos da Europa e até da Ásia pode ser explicado, em grande medida, pelas suas mentes colonizadas. Como escreveu Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido, são sujeitos que não se deram conta de serem “hospedeiros” do opressor. Brasileiros que, nos tempos atuais de espectro da globalização neoliberal, não aprenderam a enxergar as amarras coloniais e, por isso, seguem, cegamente, um pseudo-líder que não poderia ser outra coisa que não fosse um capitão do mato anti-Brasil.


[i]

Em 2004 é criada, no âmbito do Ministério da Educação, uma secretaria com ações voltadas para a educação escolar indígena, em articulação com os estados e municípios. Em 2011, com a reestruturação do MEC, a então Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD) funde-se com a Secretaria de Educação Especial, passando a ser designada Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI). Em 2019, primeiro ano do mandato de Bolsonaro, toda essa estrutura é desfeita.

[ii]

Roberto Mangabeira Unger é autor de Depois do Colonialismo Mental: repensar e reorganizar o Brasil, São Paulo: Autonomia Literária, 2018.

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