por Pedro Novaes

A morte do chefe Aritana é uma perda irreparável para o povo Yawalapiti e para o patrimônio cultural brasileiro. Sua prematura partida, vítima de covid-19, é um golpe duríssimo para essa sociedade indígena que quase chegou a desaparecer na primeira metade do século 20.

Quando os irmãos Villas Boas chegaram à região do atual Parque Indígena do Xingu, seus remanescentes encontravam-se dispersos entre aldeias de outros grupos vizinhos. À época, Paru, o pai de Aritana, foi um dos que se mobilizaram pela reunião de seu povo, juntando esses indivíduos e criando uma nova aldeia.

Desde então, em função da troca e da mistura através de casamentos com os grupos vizinhos, especialmente os Kamaiurá e os Kuikuro, a língua Yawalapiti, que pertence à família Aruak, é um patrimônio guardado por poucas pessoas – Aritana era talvez o último falante a dominar o idioma em toda a sua complexidade, o que aponta para o tamanho de sua perda. Um dos seus grandes esforços, junto com seu já falecido irmão Piracumã, sempre fora justamente o do resgate da cultura tradicional e sobretudo da língua.

Quando de minha estadia entre os Yawalapiti, por ocasião da gravação da série Xingu – A Terra Ameaçada, me lembro de acompanhar longas e pacientes sessões, juntando Aritana e os outros falantes da língua às linguistas que trabalhavam com os Yawalapiti em seu resgate e sistematização.

Mas dessa estadia, às margens idílicas do Rio Tuatuari, guardo também sobretudo a figura do grande chefe, seu tamanho e imponência física em intenso contraste com a  infindável gentileza e a doçura dos gestos. Recordo-me também das conversas à frente da Casa dos Homens, em que Aritana galvanizava a atenção com suas histórias e risada solta.

É fundamental enfatizar que a morte absolutamente evitável de Aritana, como a de outros 644 indígenas – segundo dados da Associação dos Povos Indígenas do Brasil, a APIB, no dia 8 de agosto -, não é um efeito colateral deste governo inominável. Como bem apontou João Moreira Salles, em artigo na Revista Piauí, todas as mortes, assim como a insana destruição do patrimônio natural que estamos testemunhando, são, na verdade, objetivo maior e objeto de gozo do presidente e dos seus.

Mas os Yawalapiti já renasceram uma vez, e haverão de saber seguir em frente com a memória e o espírito de Aritana guiando-os.

Pedro Novaes é diretor de cinema.

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