Tudo passa. Aritana permanecerá

colaboração de Susana Grillo
foto de Renato Soares

Conheci Aritana na sua aldeia Yawalapiti, em 1975, quando cheguei no Alto Xingu onde permaneci até 1978. Conhecia esse nome mencionado por Karl von der Steinen na viagem de sua expedição científica em 1884. Quando esteve entre os Yawalapiti, Steinen conversou com o chefe da aldeia – ARITANA. Descreveu a aldeia, suas casas, os desenhos nas madeiras de sustentação da bela arquitetura tradicional dos povos indígenas daquela região, coletou algumas palavras, impactado com o multilinguismo que encontrou convivendo com práticas socioculturais comuns, entre elas a realização do Kwarup. Em 1975, o Aritana do século XX estava em formação para assumir a liderança de seu povo. Paru, seu pai, uma das duas maiores lideranças da região multiétnica do Alto Xingu, era o responsável por essa formação que já contava com 12 anos de reclusão ritual.

Me impressionava o contínuo de uma história documentada no século XIX e que estava sempre se refazendo forte, pujante, íntegra em meados do século XX, vencendo e resistindo a tantos obstáculos encontrados no caminho como epidemias que reduziram em muito a população, a ponto os Yawalapiti deixarem de ser uma unidade sócio-política, dispersos em aldeias de outros povos a partir de casamentos interétnicos. Paru resolveu recompor seu povo, conseguiu e preparava Aritana para sucedê-lo na liderança de uma trajetória histórica de muitos e muitos séculos, mas de grandes vulnerabilidades …

Aritana – uma pessoa que sempre me impressionou pelo prestígio pessoal e social, seu carisma construído pela delicadeza, pela diplomacia, pelo extremo respeito que dedicava a todas as pessoas. Falava baixo, o que garantia toda a atenção de quem o escutava. Fez escolhas estratégicas. Em mundo de relações pouco confiáveis com “Caraíbas” de poder que tinham em suas mãos decisões sobre o bem estar e até sobrevivência dos povos alto xinguanos e de outros povos no Brasil, preferiu atuar pela dignidade de seu povo e de outros povos unidos por uma radical diversidade cultural. Para Aritana, essas relações deveriam se pautar pela mais leal e respeitosa diplomacia, pelo diálogo. No entanto, em muitos momentos não confirmou suas expectativas. Assim, era mais importante fortalecer seu povo, levar a juventude xinguana a compreender e defender valores que mantinham seu(s) mundo(s) vivos.

Por isso, Aritana pouco viajava pelo mundo dos “Caraíbas”. Sua prioridade era despertar, alentar, encorajar defesas simbólicas no enfrentamento de uma realidade que podia dissolver seu mundo.

Aritana nos deixou. O Alto Xingu terá possibilidade de formar outro Aritana? Depende de nós desarmarmos uma triste e destrutiva conjuntura política que nega valor à vida, que nega a vida aos povos indígenas, nos aviltando enquanto nação, nos entristecendo a cada dia.

Tudo passa, com um rastro de desgraça, mas passa. Só Aritana permanecerá.

Susana Grillo é bacharelada e licenciada em língua e literatura brasileira (UFRJ) e mestre em educação brasileira com foco em alfabetização bilíngue (povo Xerente). Durante décadas como servidora da Funai, trabalhou por doze anos em aldeias indígenas na área da educação. Em 2002, aposentada da Fundação, foi para o Ministério da Educação, onde trabalhou com gestão de políticas públicas voltadas para Educação Escolar Indígena e para a diversidade, de 2002 a janeiro de 2019. Nos últimos vinte anos trabalhou também como formadora de professores indígenas.

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