Com foto de Renato Soares
Publicado em 05/08, às 22h. Atualizado em 06/08, às 17h15

O cacique Aritana Yawalapiti, uma das principais lideranças indígenas do Brasil, morreu hoje 05/08), vítima de Covid-19. Aritana estava internado há duas semanas em um hospital na cidade de Goiânia para onde se dirigiu após ter contraído a doença na própria aldeia, no Alto Xingu, e ter recebido atendimento emergencial na pequena cidade de Canarana, no estado do Mato Grosso.

Segundo o médico Celso Correia Batista, que atende os indígenas no Xingu, ainda na aldeia Aritana apresentou sintomas de Covid-19: tosse, cansaço e falta de ar. Foi levado a Canarana, onde uma tomografia mostrou comprometimento de 50% de sua função pulmonar. Diante da impossibilidade de realizar um transporte aéreo ao longo de dois dias, o médico então enfrentou uma longa viagem terrestre para chegar a um hospital com UTI em Goiânia.

A família do líder indígena emitiu uma nota de pesar na qual lembra que “ele era um dos últimos falantes da língua tradicional de seu povo, o yawalapiti, mesmo nome da etnia. Além de guardar a memória de sua língua natural, Aritana também falava português e outros quatro idiomas tradicionais indígenas”.

A mesma nota lembra que Aritana era um “grande defensor da luta pela preservação e perpetuação da cultura de seu povo para as novas gerações, e constantemente denunciou os efeitos do desmatamento no entorno de seu território, como a extinção de peixes dos rios e a contaminação das águas”.

Segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), às 16h do dia 5 de agosto (horário de Brasília), havia 22.325 casos confirmados de Covid-19 entre os indígenas brasileiros, além de 633 mortos. O número de povos afetados é 148. Os números são maiores – e mais precisos – que os apresentados pelo governo brasileiro, pois este exclui de suas estatísticas os atendimentos a indígenas realizados em cidades. Dados divulgados pelo Instituto Sociambiental apontam que, no Território Indígena do Xingu, há 139 casos confirmados, 138 suspeitos e 12 óbitos de Covid-19.

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“Uma das figuras mais icônicas e mais importantes do Brasil”. Com essas palavras, o fotógrafo indigenista Renato Soares lastimou a perda de Aritana, seu amigo por mais de 20 anos.  Renato Soares, um dos membros d’O Caraíba, está fazendo um livro sobre os Yawalapiti, onde estão histórias do povo, relatadas por Aritana. “Perdemos mais que uma liderança. Perdemos uma figura que era um conciliador, era uma figura muito importante para todos nós”.

Segundo Renato, “Aritana era um político. Era uma pessoa que não gostava de lutas e guerras, um conciliador. Mas sabia lutar pelos seus direitos, lutar por seu povo. Sua figura foi muito importante para os índios terem visibilidade no Brasil. Porque, nos anos 60, no período militar, o índio incomodava muito os militares. Aí, então, surge Aritana, com toda sua capacidade diplomática, de negociação. Foi muito importante mostrar que não se tratava de selvagens, mas de pessoas que tinham um conhecimento sobre política, sobre cidadania, sobre o outro.”

Depoimentos

Pedro Novaes, diretor de cinema

A morte do chefe Aritana é uma perda irreparável para o povo Yawalapiti e para o patrimônio cultural brasileiro. Sua prematura partida, vítima de covid-19, é um golpe duríssimo para essa sociedade indígena que quase chegou a desaparecer na primeira metade do século 20. (Leia texto completo)

Renato Soares, fotógrafo

Susana Grillo, mestre em educação brasileira

Conheci Aritana na sua aldeia Yawalapiti, em 1975, quando cheguei no Alto Xingu onde permaneci até 1978. Conhecia esse nome mencionado por Karl von der Steinen na viagem de sua expedição científica em 1884. Quando esteve entre os Yawalapiti, Steinen conversou com o chefe da aldeia – ARITANA. Descreveu a aldeia, suas casas, os desenhos nas madeiras de sustentação da bela arquitetura tradicional dos povos indígenas daquela região, coletou algumas palavras, impactado com o multilinguismo que encontrou convivendo com práticas socioculturais comuns, entre elas a realização do Kwarup. Em 1975, o Aritana do século XX estava em formação para assumir a liderança de seu povo. Paru, seu pai, uma das duas maiores lideranças da região multiétnica do Alto Xingu, era o responsável por essa formação que já contava com 12 anos de reclusão ritual. (Leia texto completo)

Washington Novaes, jornalista

“É uma perda muito forte”, comentou o jornalista Washington Novaes, autor de uma série documental de doze episódios intitulada “Xingu – A Terra Ameaçada”, exibida pela TV Manchete em 1984 e ganhadora da medalha de ouro no Festival Internacional de TV de Seul (1985) e no Festival de Cinema e TV de Havana (1990), bem como do prêmio Sala especial na Bienal de Veneza (1986). O jornalista é também autor dos livros: “Xingu, uma flecha no coração” e “Xingu; Índios no Brasil”, dentre outros.

Hoje, quando a terra do Xingu, incluindo seus habitantes, está mais ameaçada do que jamais esteve desde a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961, Novaes comenta que não apenas os yawalapiti perderam seu principal líder. “Nós também perdemos muito, porque é uma cultura em que ninguém manda em ninguém, ninguém dá ordens para ninguém”, explica, “então, nós poderíamos aprender muito com ele”. Numa manifestação de esperança para com a humanidade, Washington Novais, aos 86 anos, concede “ainda podemos aprender um pouco com o seu povo”.

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