Indígenas Brasileiros pedem socorro para evitar extermínio

As primeiras vítimas indígenas foram alguns dos guardiões da sabedoria ancestral, as lideranças mais velhas

com ilustração de Ildo Nascimento

Mais de 800 mil indígenas brasileiros (817.963 segundo o Censo de 2010) clamam por socorro no país e no mundo. Tanto os que estão espalhados pelas áreas rurais que, por direito constitucional, ocupam 118 milhões de hectares ou 13% do território nacional, quanto os que habitam nas zonas urbanas estão profundamente vulneráveis à contaminação pelo Coronavírus e sem o apoio necessário por parte do governo.

Os pedidos de socorro são feitos em diversas línguas e têm por objetivo obter um mínimo de condições de preservar as etnias que estão ameaçadas e abandonadas ao extermínio. Alguns falam por meio de organizações não-governamentais que já os auxiliavam, outros estão agora na internet, na TV e na imprensa em geral para, pela primeira vez, pedir com suas próprias palavras uma ajuda mais direta às tribos.

Aceitam qualquer doação, pois precisam de praticamente tudo, desde alimentos, materiais agrícolas, assistência médica, medicamentos e até materiais de limpeza e água potável, de modo que possam sobreviver e também construir hospitais onde não há para tratar seus doentes com dignidade. Do governo federal do Brasil, apesar dos recursos extraordinários aprovados pelo parlamento para debelar a pandemia, só recebem pelas mãos das Forças Armadas algumas cestas básicas de alimentos e lotes gigantescos de cloroquina e hidroxicloroquina, medicamento visto pelo presidente Jair Bolsonaro como o Santo Graal, mas que não atua contra o Covid-19 e ainda pode matar por arritmia cardíaca se administrado sem controle de eletrocardiogramas, algo que não existe nas áreas indígenas.

As primeiras vítimas

As primeiras vítimas indígenas da onda de extermínio pela Covid-19 foram alguns dos guardiões da sabedoria ancestral, as lideranças mais velhas. Nesse grupo estão Vovó Bernaldina (Macuxi, falecida em 24 de junho), Juca Kamayurá (do Alto Xingu, ex-lutador de huka-huka, típica desses povos, morto no dia 25 de julho), Paulino Paiakan (Kayapó, que morreu dia 17 de junho).

Na semana passada, a saga foi do cacique septuagenário Aritana Yawalapiti, do Alto Xingu. Diante da negativa para uso de aviões, ele enfrentou, com um médico determinado e cilindros de oxigênio quase vazios, viagem de 10 horas de carro até chegar a uma unidade de cuidados intensivos em Goiânia. Sua luta até chegar a um hospital foi contada em todo o mundo pela Reuters e por outras mídias internacionais.

Os números do Ministério da Saúde do Brasil e os das associações indígenas e das organizações não governamentais divergem, até porque os testes não alcançam todas as etnias. Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), os casos de contaminação entre povos originários chegam a 18.260 e os mortos somam ao menos 570, excluídos os possíveis crianças, bebês e povos isolados de regiões como do Alto Javari, entre outras. Mas, segundo os dados oficiais divulgados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena, apenas 13.096 índios foram infectados e 247 morreram em razão do Covid-19 desde o início da pandemia.

Pelo Brasil

A pandemia pelo Covid-19 começou pela Amazônia e causou quatro mortes entre os Yanomami. Os povos do Alto Solimões, Alto Rio Negro e Alto Juruá foram os primeiros atingidos por estarem mais expostos em razão da devastação ocorrida no ano passado, da invasão de garimpeiros, de madeireiros, dos contatos com os brancos não autorizados e até com refugiados venezuelanos. Na região, os dados oficiais apontam 87 mortes por Covid-19. Nessa área, as distâncias são gigantescas, os meios de locomoção são esparsos e não existem hospitais com terapia intensiva.

Quase simultaneamente, a pandemia chegou aos 11 povos do Maranhão (21 mortes), entre eles os numerosos Guajajara e os Kaiapó, muitos dos quais são nômades e muitas vezes vivem em abrigos onde é impossível manter distanciamento. Antes da pandemia, vários já chegavam ao posto médico com tuberculose e as migrações dificultavam a adesão ao tratamento. Agora, porém, há um novo elemento, o Covid-19, que recomenda a não circulação dos infectados.

Num segundo momento, a doença alastrou-se para os povos do Nordeste como os 11 povos do Ceará (cinco mortes), mais expostos a contatos com as cidades. Em Teresina, muitos indígenas também vivem em espaços coletivos onde há alta contaminação e houve pelo menos uma morte.

Enquanto a contaminação no Nordeste ainda está em alta, o vírus começa a atacar também os povos Xavante e Kayowá, que habitam a região central do país, no estado do Mato Grosso do Sul, onde o isolamento transcultural também é menor, e maiores são os problemas de saúde decorrentes da incorporação dos hábitos alimentares dos brancos. Nessas etnias, o governo contabiliza já 29 mortes, mas os indígenas falam em 60, em especial depois da inauguração de uma rodovia próxima a Aquidauana, que reuniu autoridades e indígenas do povo Terena em evento com mais de 200 pessoas e resultou em ao menos seis mortes de indígenas duas semanas depois.

Na região do Rio Tapajós, há povos de 13 etnias em 70 aldeias ainda não demarcadas. Estão ali povos como Munduruku, Kayabi, Apiaká e Rikabatsá sem acesso regular aos já parcos cuidados do governo federal por não estarem em aldeia demarcada. Eles se juntaram a outros grupos prejudicados pela proximidade da Usina de Belo Monte, e pediram ao Supremo Tribunal Federal para se somar à Ação de Descumprimento de Princípio Fundamental (ADPF) Nº 709, que tramita na corte, pela falta de assistência pública. No início de julho, o ministro Luís Roberto Barroso, um dos 11 membros da corte, “determinou que o Subsistema de Saúde Indígena atenda os povos que estejam em áreas com demarcação já concluída ou não; a criação de um grupo de trabalho com participação de indígenas e governo para monitorar as ações em geral e de uma uma sala de situação para definir uma estratégia para povos isolados e de recente contato em particular; além da implantação de barreiras sanitárias em territórios com indígenas isolados”.

Pedido de ajuda

Além de lutar por seus direitos constitucionais, lideranças importantes se reuniram para montar um sistema de arrecadação direta de recursos para combaterem, eles próprios, a pandemia, pois estão abandonados pelo poder público.

No Xingu, onde a pandemia chegou há apenas dois meses e já se contabilizam 15 mortes e 916 casos de contaminação nas áreas ditas protegidas, também há ação coordenada das tribos. Em parceria com autoridades de saúde e recursos doados, o grupo conseguiu criar 13 unidades de Atenção Primária Indígena (UAPIs) para atender os pacientes com manifestações leves e moderadas do vírus que podem receber tratamento mais próximo das comunidades e evitar deslocamentos para as cidades. Mas em Canarana, cidade vizinha às terras do Xingu, já havia, em junho, o registro de 208 casos e quatro mortos. Em Querência, na mesma região, foram 408 contaminados e dez mortos. No dia 16 de junho faleceu, em Sinop, vítima do Covid-19, Jawaiu Kawaiwete, integrante da equipe de vigilância do Xingu.

Quanto mais a pandemia avança para o Sul e para o Sudeste, mais abandonados se encontram os índios e as tribos instaladas na região. É que fora das reservas demarcadas, a viver muitas vezes em abrigos ou acampamentos ao lado das cidades, sequer são considerados, pelo governo federal, cidadãos vinculados aos povos originários. Se estão nas áreas rurais, são vistos como simples agricultores ou produtores rurais; nas cidades, como pessoas comuns e, frequentemente, sem trabalho e sem direito a preservar seus usos e costumes, estranhos ao mundo dos brancos. Em ambos os casos são deixados à própria sorte para buscar sozinhos atendimento de saúde no sistema público (SUS) que nem dá conta dos brancos e muito menos conhece as características das etnias ou sabe lidar com indígenas.

Leave A Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *