Ilustração de Ildo Nascimento

Primeiro todos estavam infectados, menos ele. Depois ele é que está, mas não contamina ninguém. Não é um fenômeno? É da boa tradição do jornalismo desconfiar dos governantes, porque o segredo, a mentira, a trapaça são da natureza da política. Mas as democracias liberais sempre buscaram manter as aparências, mesmo quando agem por baixo do pano, e o trabalho da imprensa sempre se pautou por descobrir essas manobras – ou melhor, sempre se legitimou dessa forma, mesmo que a imprensa também agisse politicamente, como ator político que é, de modo que os nobres princípios éticos sempre se subordinaram a outros interesses. Mas, se de modo geral a regra é desconfiar, imagine-se no caso de governantes que se elegeram e se mantêm na base da mentira sistemática.

Quando, em março, retornou de uma viagem aos Estados Unidos com pelo menos 23 pessoas contaminadas em sua comitiva, Bolsonaro insistia em que gozava de plena saúde, mas se recusava a mostrar os exames que comprovariam essa condição. Só o fez constrangido por uma ordem judicial, mesmo assim apresentando laudos em nome de terceiros e até em código – o “paciente 05”. A justificativa para a manobra de ocultamento foi “preservar a imagem e a privacidade do presidente da República”. A imprensa anotou essa suspeição, mas não avançou muito além disso.

Eis que, no dia 7 de julho, Bolsonaro resolve convocar a imprensa – a imprensa, não: três veículos apenas – para anunciar que havia contraído o vírus mas, vejam só, já estava ótimo, porque desde os primeiros sintomas havia começado a tomar a droga milagrosa da qual é garoto-propaganda desde que a pandemia atingiu o Brasil.

Mais uma vez a imprensa, de modo geral, notou a mudança de comportamento e a contradição – antes era preciso mascarar a identidade para preservar a imagem do presidente, agora isso já não era necessário. Entretanto, passou ao largo de um pequeno detalhe: a informação, no pé do laudo, de que o material foi “colhido fora”. Como, então, assegurar que a amostra apresentada ao laboratório era mesmo de Bolsonaro?

Suspeitas desse tipo costumam ser descartadas como “teorias da conspiração”, em geral – e curiosamente – atribuídas à esquerda, quando são historicamente difundidas pela direita. Bastaria lembrar do estereótipo do comunista devorador de criancinhas e da aliança da pílula anticoncepcional, do rock e da maconha como plano de Moscou para destruir a família cristã e ocidental. Sem contar, naturalmente, a atual e improvável façanha de ressuscitar a ameaça vermelha internacional, quando o que ocorre é justamente o recrudescimento do fascismo, o que só demonstra a eficácia da propaganda que excita medos arcaicos no imaginário dos ignorantes.

Teorias conspiratórias existem. Conspirações, também. Sugerir que Bolsonaro não esteja doente agora – e que, pelo contrário, tenha escondido o seu verdadeiro estado quando retornou com sua comitiva infectada – não tem nada de absurdo. O próprio laudo do exame, como se vê, fornece uma base concreta para essa suspeita. Se houvesse ânimo investigativo – aquele ânimo que nossa imprensa teve, por exemplo, ao demonstrar a farsa da versão oficial sobre o atentado no Riocentro, em 1981 –, seria possível tentar tirar a limpo essa história.

Não deixa de ser importante especular sobre o contexto que teria levado o presidente a atrair para si os holofotes da imprensa brasileira, apostando também na previsível repercussão internacional. Subitamente domesticado depois da prisão de seu amigo Fabrício Queiroz, ex-assessor de um de seus filhos, e vendo avançar as investigações judiciais sobre o esquema de fake news utilizado desde a campanha eleitoral, seria útil produzir um fato que chamasse a atenção do público.

Mas o que mais chama a atenção é mesmo a oportunidade que essa providencial notícia ofereceu para o reinvestimento na campanha a favor da droga da qual Bolsonaro é entusiasta, e que precisa desovar agora que investiu pesadamente na sua produção, mesmo depois de a Organização Mundial da Saúde descartar o medicamento como ineficaz e até perigoso para o tratamento da Covid-19.

Promissores efeitos colaterais da propaganda, no mundo dos negócios: reportagem do Estadão sobre “quem são os empresários que ganham com a cloroquina no Brasil” mostra que o consumo do medicamento pelos brasileiros cresceu 358% durante a pandemia. Perniciosos efeitos colaterais, no mundo das pessoas comuns: a crescente pressão do próprio público sobre médicos, para que receitem esse remédio, como vários profissionais de saúde vêm denunciando.

Benefícios evidentes de um diagnóstico que vem mesmo a calhar: sustentar o discurso que sempre menosprezou a “gripezinha”, que teria de ser enfrentada “como homem” – até porque “máscara é coisa de viado” – e com o medicamento no qual as pessoas precisam “acreditar”, para confirmar que “Bolsonaro tem razão”. 

“Estou tomando aqui a terceira dose da hidroxo…cloroquina (sic), hahaha… tô me sentindo muito bem”, diz o presidente, muito à vontade, num vídeo gravado no mesmo dia em que anunciou estar infectado. Depois de dizer que há outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus, nenhum de eficácia comprovada, ele apresenta seu exemplo pessoal como “prova” de que “está dando certo”. E, como nos apelos publicitários mais rasteiros, arremata: “Eu confio na hidroxicloroquina. E você?”.

Pois basta confiar: o sucesso de uma medicação depende da fé. Se não der certo, será por outras razões, e razões nunca faltaram para continuar a justificar a própria fé. O professor Paolo Demuru, que tem se dedicado a demonstrar as artimanhas discursivas das fake news, escreveu que esse episódio era mais um exemplo da eficácia da narrativa do “eu” e de seu caráter “testemunhal/assertivo”. Assim, o caso particular de sucesso de Bolsonaro no tratamento da doença se tornaria “a evidência empírica de que o remédio funciona de modo ‘geral’, ‘para todos’”. Demuru aponta esta como “uma das facetas mais perigosas da pós-verdade: a afirmação da verdade do ‘um’ enquanto ‘regra geral’, a sua primazia sobre a realidade realmente verdadeira”.

Se um testemunho verdadeiro já carregaria esse risco, imagine-se quando ele é falso. Se não há doença, a cura está garantida à partida. O “mito” tem sempre razão.

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